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Lula insiste no erro de bloquear recursos de agências reguladoras

Editorial O Globo
Cortes de recursos estão associados ao descontrole fiscal — e porão em risco a fiscalização de setores essenciais

Ao anunciar mais um bloqueio no orçamento das agências reguladoras, o governo afeta o trabalho de fiscalização de setores essenciais.

Desta vez, o corte de 20% é resultado do descontrole fiscal do próprio governo. Destina-se a compensar a alta de R$ 14,1 bilhões nos gastos com o Benefício de Prestação Continuada (BPC) — repleto de irregularidades cuja investigação o INSS abrandou — e de R$ 11 bilhões em gastos com a Previdência — cujos benefícios, indexados ao salário mínimo, sobem além da inflação. Foram atingidas 11 agências reguladoras e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), com impacto em setores como energia, mineração, petróleo e gás, vigilância sanitária ou telecomunicações. A maioria das agências tem hoje orçamento inferior ao de uma década atrás.

São raras ocorrências de impacto em que não esteja envolvida uma agência reguladora. O exemplo mais recente foi o choque de dois helicópteros na região do Aeroporto de Jacarepaguá, no Rio. Certificação e documentação de aeronaves e pilotos são atribuições da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Atingida pelo bloqueio, a Anac anunciou que seu trabalho de fiscalização seria reduzido em 40%. Também suspendeu a certificação de pilotos e comissários de aeronaves. Das 11 agências, a Anac sofreu o terceiro maior bloqueio (19,9%), atrás apenas da Agência Nacional de Saúde Suplementar (20,5%) e da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (21,3%).

Outra afetada por bloqueio foi a Agência Nacional de Mineração, com corte de 18,6%, ameaçando a fiscalização de 43 barragens e 18 pilhas de rejeitos de minério semelhantes às de Mariana e Brumadinho. Houve ainda bloqueio de 18,8% nos recursos da ANPD, recentemente incumbida de fiscalizar as obrigações impostas pelo ECA Digital para proteger menores de idade nas redes sociais.

A Agência Nacional do Petróleo (ANP), responsável pela fiscalização de postos de combustíveis, também sofreu bloqueio. “No ano passado, com os cortes, a ANP teve problemas com o programa de monitoramento de qualidade de combustíveis e precisou interromper a fiscalização contra a adulteração da gasolina e do diesel. E o que aconteceu? Houve sonegação facilitada”, diz Vinícius Benevides, presidente da Associação Brasileira das Agências Reguladoras. Operação policial recente constatou que o PCC adulterava combustível em mil postos de dez estados. Fragilizar a ANP facilita a atuação do crime organizado no setor.

A atribuição das agências é essencialmente técnica: regular os mercados e zelar pela qualidade dos serviços, evitando abusos do setor privado e ingerência política do Executivo para preservar o interesse do consumidor. Elas também protegem os investidores ao garantir um ambiente de negócios previsível. Mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva jamais se conformou com a blindagem das agências a interferências. No primeiro mandato, afirmou que elas “terceirizavam” ações do Executivo. Lula continua errado — e os bloqueios mostram que insiste no erro.
https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial/coluna/2026/06/lula-insiste-no-erro-de-bloquear-recursos-de-agencias-reguladoras.ghtml

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